Do que canso, me desfaço
Viro o mundo pelo avesso
Mudo os modos, mudo a face
Mudo o nome e o endereço
Do que canso
Janeiro 29, 2011O que nos faz ficar
Novembro 5, 2010Era jovem, sensível e talentoso, mas morreu. Ser jovem e talentoso de nada impediu, e ser sensível, aposto, é parte do que o leva embora. Sensibilidade, dizem, é uma qualidade, e eu discordo. Talvez seja para quem a aprecia de fora; para o virtuoso, até onde sei, é quase pura dor.
O seu rosto eu via pouco, e nunca achei triste – não afirmo que não fosse. Mas o que eu pensava ver nele não era melancolia, e sim a arrogância elegante do inteligente, a indiferença do ousado, do confiante. Na verdade, sentia inveja do que, eu pensava, era um raro caso de gênio acompanhado de felicidade. Mas talvez fosse triste. Provavelmente era – como poderia não sofrer sendo sensível?
Melhor evitar um rótulo tão pejorativo como “sensível”. Chamemos-no de sensato. Analisando friamente, nada pode ser mais inconsequente que continuar vivo, se debatendo, se torturando e se permitindo torturar. Acreditamos, quase todos, que a morte é o descanso definitivo, a recompensa maior. E, incoerência das incoerências, nos recusamos a apressá-la. Não me vem à cabeça nenhum outro exemplo de bem gigantesco atrás do qual optamos por não correr.
Decidimos ver o suicídio como prova de fraqueza, e isso faz com que não prestemos atenção ao seu caráter ativo, ao poder que contém. Matar-se provavelmente é a única chance, em uma vida inteira, de autodeterminar-se plenamente. E uma chance bastante escorregadia, basta ser morto para perdê-la.
Estamos todos indo em direção à forca, mas não sabemos qual, nem quando. No caminho, felicidade absoluta e tristeza desoladora. A vida, que minha mãe tentava me convencer, é uma montanha russa, parece mais uma roleta russa: medo, euforia e um final previsível após um certo número de cliques. Os ansiosos, os inconformados e os sensíveis, como o jovem de que falo, esses são os únicos inteligentes o bastante para pular os desnecessários solavancos no meio do percurso. Diga que são medrosos, eu digo que são os únicos corajosos o suficiente para amarrar a corda no próprio pescoço. E fortes o suficiente para fazê-lo quando querem, sem dar a ninguém mais esse privilégio.
Para os covardes, os que continuam aqui e nada têm a fazer exceto tentar extrair algum sentido do vazio – de onde, por definição, jamais se conseguirá extrair nada -, fica apenas a vontade de chorar. Vontade pouca e fraca de quem não o conheceu bem, de quem nem sabe se tem o direito de sofrer por ele. Vontade impotente de confortar os que sentem sua falta, de chorar por não ter coragem para enfrentar a morte, nem sabedoria para aceitar a vida. Por jamais saber o que leva as pessoas embora e, principalmente, por nunca entender o que nos faz ficar aqui.
Insuficiente
Setembro 19, 2010Pulverizado, fragmentado,
desmotivado, inconsciente;
banalizado, ultrapassado,
despreparado, quase demente.
Atormentado, demonizado,
infernizado insuficiente;
desavisado, desarranjado,
debilitado, deficiente.
Tarde
Julho 17, 2010Palavras retas por dias tortos
Verdade triste, vergonha dura
A lágrima pouca, ainda que pura
O gesto ardente, mas muito tarde
Um rosto inerte, já sem doçura
Os lê de perto, parte por parte
Os lê decerto, mas nada arde
Antes a morte que essa tortura
Alma
Março 14, 2010Procure em seu espírito as sensações mais profundas, sobre as quais não tem controle. Flutue no nada, em direção a uma pequena caixa luminosa: é sua alma. Aproxime-se enquanto a luz aumenta; toque-a, sinta-a. Segure a caixa entre seus dedos, abra a tampa suavemente. Não há nada dentro. Fiz você olhar!
Adieu!
Janeiro 20, 2010Me desculpem, senhorias,
já não quero mais ficar,
vou partindo de mansinho
pro destino não chegar
A face temerária
Janeiro 17, 2010Emerge novamente
a face temerária
teimosamente guardada
em cantos profundos da alma
Ressurge o lado mais negro
menos humano, mais bestial
transbordando ódio empoeirado
Eis que vem à tona
A face que não queremos
A face que todos temos
Mas alguns escondem bem
Publicado por Martinho Hoffman