Correnteza

Maio 29, 2009

Meus olhos não choram ainda
mas hão de chorar em breve,
que a alma, já muito ferida,
chora (e, no entanto, ninguém percebe).

Aqui dentro bem escondida,
a alma tenta se represar.
O tempo passa e não cessa a tristeza;
as lágrimas se unem em correnteza,
já as sinto extravasando pelo olhar.

Meus olhos não choram ainda,
mas hão de chorar de alguma maneira,
que o sofrer mudo e a dor contida
acabam condensando em cachoeira.


Arte

Maio 21, 2009

À primeira vista, o homem achou estranho que o quadro estivesse pendurado naquela parede. Depois se desmentiu: não é estranho; é absurdo.

E não apenas porque era a única pintura figurativa em toda a galeria. Embora, de fato, por todas as outras paredes se extendesse uma maravilhosa coleção de lixo contemporâneo. Riscos e traços infantis à esquerda, um pneu coberto de dinheiro à direita. Bem no centro, em destaque, um close intimista de um pênis ereto… a arte de hoje só sabe falar de si mesma. Não passa de uma adolescente arrogante – assim como os artistas de hoje.

Mas num canto da galeria, sob luz fraca, como que esquecido, estava o quadro. Não parecia ter a menor relação com a exposição, o que era um mérito. A face esquerda de um rosto rosado ocupava a maior parte da tela; rosto de mulher, ainda com ar de menina. Virava-se para a direita, os pequenos olhos abertos, o ombro nu sendo tocado gentilmente pelo queixo. Um queixo formidável.

Ostentava indolentemente o tipo de beleza que leva um homem a fazer bobagens. Como se soubesse que era linda – só não saberia se nunca tivesse visto um espelho – mas não desse atenção a isso. E se permitia ser flagrada ali, ignorando a câmera, com os lábios contraídos buscando algo por cima de seu ombro.

O homem comprou o quadro.

Pendurou-o em seu quarto e observa-o todos os dias, na expectativa de que ganhe vida. Até hoje, pelo que sei, isso não ocorreu.


Confidencial

Maio 21, 2009

Você tem um segredo. Eu sei. Você esconde bem e não conta nem para o melhor dos amigos. A quem espera enganar?

Olhe em volta, não há ninguém; aproveite e assuma. “Eu tenho um segredo”. Esse é o primeiro passo.

Você não passa de um pequeno pilantra. Uma inverdade aqui, uma omissão ali. Todas inofensivas, claro. Já que chegou tão longe, continue! Alegue um resfriado para faltar o trabalho hoje. Amanhã, declare amar alguém por quem você não sente nada. Minta para seu médico e diga que seguiu à risca o regime que ele passou. Roube o jornal do vizinho e acuse o morador do 703. Quando sua mãe perguntar como está, diga que nunca esteve melhor. Fale a seu chefe que você não sabe onde estão aqueles documentos, aliás eles nunca estiveram com você e pra falar a verdade você acha que eles nem existem. Coloque um pacote de biscoitos dentro da sua mochila… é um supermercado grande, jamais sentirão falta. Não anote os recados que deixam para seu pai. Narre aos amigos as maravilhas de sua incrivelmente apimentada vida sexual. Se achar uma nota de cinco reais no chão da casa, tome-a para si. Faça com que a sua ex-namorada saiba que você está melhor sem ela. Simule confiança o tempo todo. Engane o Imposto de Renda. Tire o peixinho dourado da sua irmã do aquário, espere lentamente até que morra asfixiado; aprecie o prazer do assassinato silencioso e deixe-o boiando na água – causa mortis: indeterminada.

Como deve ter percebido, é melhor ter cuidado. Eu tenho vigiado você.


Vida real

Maio 14, 2009

A lembrança não é clara. Era o ano 2000 e estávamos sentados em volta da mesa de café da manhã, enquanto uma tv sobre o balcão passava as primeiras notícias. Pedi a meus familiares um segundo de atenção para um anúncio importante. Iria apresentá-los ao futuro da tecnologia.

- Isso se chama…

Pausa dramática.

- …The Sims.

Mastiguei o nome, triunfante. Eles olharam para a caixa de papelão, esperando que se movesse.

- É um jogo.

Fitavam-me atônitos. Eu já imaginava o desapontamento de meu pai. Fosse o que fosse, o grande avanço tecnológico não tinha um visor digital. Contiuei.

- Eles levaram anos para desenvolver isso. Dá pra fazer qualquer coisa! Você pode conversar, ver televisão, comer um sanduíche.

Irmã e mãe não sabiam o que dizer. Meu pai, sem dobrar os cotovelos, pegou o jogo de minhas mãos, respeitoso como quem carregasse o Santo Sudário. “Ele está claramente decepcionado, pensei. Nenhum botão. Nem mesmo uma luz piscando”.

- Entenderam como é incrível? – Minha voz já não tinha convicção. – Você faz no jogo tudo que faz na vida real!

Silêncio constrangedor.

Encararam-me por mais alguns segundos e esqueceram de minha presença. Minha mãe disse algo a minha irmã numa voz engraçada, mas não entendi uma palavra. Meu pai voltou a cabeça de volta para para a televisão e deu uma mordida em seu sanduíche.


In the wee small hours

Maio 2, 2009

As mãos não cessavam de tocar o piano em meus sonhos. Pesadelos eróticos. Mãos brancas, brancas como brancas podiam ser, tenuemente conectadas àqueles braços brancos, onde pintas marrons haviam sido meticulosamente espalhadas ao acaso.

As mãos, os braços, tudo se movia ao som da música que emitiam aquelas teclas. Era um ruído perturbador e tão doce, tão doce, tão doce… comecei a me aproximar. As teclas brancas me mantinham em transe; eventualmente, um dó sustenido ou um fá bemol me traziam de volta à realidade, me lembravam do perigo que corria.

De longe, Ulisses gritou: – Não vá! É uma armadilha!

Pensei: “Ítaca que se foda”, e mergulhei naquela correnteza branca, agarrando-me às pintas marrons como podia.


Estranho pressentimento

Fevereiro 27, 2009

Parece-me que hoje deveria ser um dia especial. É um dia qualquer, contudo.


Cardiopatia

Fevereiro 26, 2009

Aplica-se sobre o amor uma lente de aumento e fica evidente que ele não é deste planeta.

“Já operei diversos cérebros e não vi sequer um pensamento.”, dizia o velho neurocirurgião, já eu quebrei o meu coração suficientes vezes sem nunca ter encontrado o amor entre os cacos. (Estes, armazeno no congelador, planejando requentá-los no microondas, provavelmente num domingo tedioso e acompanhados de feijão de sexta.)

Pelo que sei, o amor permanece incógnito e muito bem escondido. Estão todos a buscá-lo, mas tão poucos o sabem, se é que sabem. Os outros ficamos à procura, 6 bilhões de corações batendo em freqüências desarmônicas.

E quando pensamos tê-lo achado… ah, a beleza! Oh, a poesia! Tão doce fica a vida, meu tio hipoglicêmico não a suportaria. Todo som vira música, inclusive giz na lousa e motor de kombi. Enfim a alma gêmea encontra seu par entre tantas outras, em meio a um mundo tão vasto. O universo torna-se quase compreensível! É tudo tão improvável, e no entanto tudo é.

Mas chega um dia – e eles não param de chegar, em média a cada 24 horas – em que tropeçamos nesse castelo de cartas. De um ângulo privilegiado, podemos observar enquanto o chão se aproxima de nossas testas. O coração salta do peito, projeta-se para longe, quica feito bola de basquete, até que cessa seu movimento. Após instantes, como uma granada, lança seus estilhaços em todas as direções.


Maldito, maldito, maldito

Outubro 24, 2008

São três maldições; uma é esse sofrer constante, a outra é o querer colocá-lo para fora, seja pela palavra, pela nota, pela câmera; a pior das três maldições é o não conseguir.


deus e o mundo

Outubro 23, 2008

Vim ao mundo nervoso de pai e mãe, órfão de bom senso, com uma paciência natimorta. Lutei contra minha agressividade e descobri não ser páreo para um inimigo como eu. Detonado o projeto de uma vida menos explosiva, restou a hipótese de canalizar o ódio na direção de algo construtivo.

Nunca funcionou.

Conformou-me a possibilidade de socializar a raiva. Basta uma vingança calculada, bem executada, trabalhosa… e estou como novo! Nada é mais edificante do que um filho da puta na lama.

E quando o crime não tem réu? Quando bate essa sede de sangue, incapaz de tolerar o que quer que seja, a necessidade de ver ruir tudo, mas ninguém em especial? Só posso crer que, na falta de um alvo, é melhor atirar para todos os lados, atacar deus (com minúsculas) e o mundo, usar a mágoa para desconstruir tudo que existe. Cada ser vivo, cada ser morto.

Uma vez devastado, é possível que o planesta finalmente se torne habitável.


A Cidade

Maio 19, 2008

Existe uma cidade que, por pior que seja, é insubstituível.

(Se você nasceu e cresceu no mesmo lugar, sabe do que estou falando.)

Você reclama da Cidade, de como ela se tornou violenta, de como lá o tempo parece não passar e nada de realmente interessante acontece. E, ainda assim, você sempre volta.

Crescer em um lugar é algo perigosíssimo. Cria vínculos difíceis de desatar. Por mais que você a chame de feia, insípida ou desagradável, a Cidade sempre dá um jeito de te puxar de volta. É provável que cada esquina do lugar tenha moldado o seu caráter, sua personalidade, seu gosto. Se você hoje odeia a Cidade, é porque ela quis assim, para que quando você estivesse longe a saudade se tornasse ainda mais amarga.

Nas paredes do melhor e menos lucrativo cinema da Cidade (para mim, o nome da Cidade é Vitória. Para você, talvez seja outro nome completamente diferente) esteve escrito: “‘Aquele que não sabe para onde vai deve lembrar-se de onde veio.’ – Provérbio africano”. Quanto mais os dias passam, mais acredito nessa frase. E adoraria saber quem foi o idiota que a tirou daquela parede.

Contrariando essa simples lógica – ela avisa, em vão, que é impossível romper o campo gravitacional da Cidade – você tenta se afastar. Promete não pensar nela mais e se esconde no lugar mais longe possível.

É como juntar seus pertences aos 6 anos de idade e se despedir da mãe, prometendo fugir de casa. Causa um espetáculo divertido de ver. E só. Tanto você como ela sabem que a farsa não durará mais que uma volta em torno do quarteirão.

Você, completamente indefeso, caminha olhando para trás.

A Cidade acena do portão e sorri com desdém.