Existe uma cidade que, por pior que seja, é insubstituível.
(Se você nasceu e cresceu no mesmo lugar, sabe do que estou falando.)
Você reclama da Cidade, de como ela se tornou violenta, de como lá o tempo parece não passar e nada de realmente interessante acontece. E, ainda assim, você sempre volta.
Crescer em um lugar é algo perigosíssimo. Cria vínculos difíceis de desatar. Por mais que você a chame de feia, insípida ou desagradável, a Cidade sempre dá um jeito de te puxar de volta. É provável que cada esquina do lugar tenha moldado o seu caráter, sua personalidade, seu gosto. Se você hoje odeia a Cidade, é porque ela quis assim, para que quando você estivesse longe a saudade se tornasse ainda mais amarga.
Nas paredes do melhor e menos lucrativo cinema da Cidade (para mim, o nome da Cidade é Vitória. Para você, talvez seja outro nome completamente diferente) esteve escrito: “‘Aquele que não sabe para onde vai deve lembrar-se de onde veio.’ – Provérbio africano”. Quanto mais os dias passam, mais acredito nessa frase. E adoraria saber quem foi o idiota que a tirou daquela parede.
Contrariando essa simples lógica – ela avisa, em vão, que é impossível romper o campo gravitacional da Cidade – você tenta se afastar. Promete não pensar nela mais e se esconde no lugar mais longe possível.
É como juntar seus pertences aos 6 anos de idade e se despedir da mãe, prometendo fugir de casa. Causa um espetáculo divertido de ver. E só. Tanto você como ela sabem que a farsa não durará mais que uma volta em torno do quarteirão.
Você, completamente indefeso, caminha olhando para trás.
A Cidade acena do portão e sorri com desdém.
Publicado por Marto
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