As mãos não cessavam de tocar o piano em meus sonhos. Pesadelos eróticos. Mãos brancas, brancas como brancas podiam ser, tenuemente conectadas àqueles braços brancos, onde pintas marrons haviam sido meticulosamente espalhadas ao acaso.
As mãos, os braços, tudo se movia ao som da música que emitiam aquelas teclas. Era um ruído perturbador e tão doce, tão doce, tão doce… comecei a me aproximar. As teclas brancas me mantinham em transe; eventualmente, um dó sustenido ou um fá bemol me traziam de volta à realidade, me lembravam do perigo que corria.
De longe, Ulisses gritou: – Não vá! É uma armadilha!
Pensei: “Ítaca que se foda”, e mergulhei naquela correnteza branca, agarrando-me às pintas marrons como podia.