A lembrança não é clara. Era o ano 2000 e estávamos sentados em volta da mesa de café da manhã, enquanto uma tv sobre o balcão passava as primeiras notícias. Pedi a meus familiares um segundo de atenção para um anúncio importante. Iria apresentá-los ao futuro da tecnologia.
- Isso se chama…
Pausa dramática.
- …The Sims.
Mastiguei o nome, triunfante. Eles olharam para a caixa de papelão, esperando que se movesse.
- É um jogo.
Fitavam-me atônitos. Eu já imaginava o desapontamento de meu pai. Fosse o que fosse, o grande avanço tecnológico não tinha um visor digital. Contiuei.
- Eles levaram anos para desenvolver isso. Dá pra fazer qualquer coisa! Você pode conversar, ver televisão, comer um sanduíche.
Irmã e mãe não sabiam o que dizer. Meu pai, sem dobrar os cotovelos, pegou o jogo de minhas mãos, respeitoso como quem carregasse o Santo Sudário. “Ele está claramente decepcionado, pensei. Nenhum botão. Nem mesmo uma luz piscando”.
- Entenderam como é incrível? – Minha voz já não tinha convicção. – Você faz no jogo tudo que faz na vida real!
Silêncio constrangedor.
Encararam-me por mais alguns segundos e esqueceram de minha presença. Minha mãe disse algo a minha irmã numa voz engraçada, mas não entendi uma palavra. Meu pai voltou a cabeça de volta para para a televisão e deu uma mordida em seu sanduíche.