Era jovem, sensível e talentoso, mas morreu. Ser jovem e talentoso de nada impediu, e ser sensível, aposto, é parte do que o leva embora. Sensibilidade, dizem, é uma qualidade, e eu discordo. Talvez seja para quem a aprecia de fora; para o virtuoso, até onde sei, é quase pura dor.
O seu rosto eu via pouco, e nunca achei triste – não afirmo que não fosse. Mas o que eu pensava ver nele não era melancolia, e sim a arrogância elegante do inteligente, a indiferença do ousado, do confiante. Na verdade, sentia inveja do que, eu pensava, era um raro caso de gênio acompanhado de felicidade. Mas talvez fosse triste. Provavelmente era – como poderia não sofrer sendo sensível?
Melhor evitar um rótulo tão pejorativo como “sensível”. Chamemos-no de sensato. Analisando friamente, nada pode ser mais inconsequente que continuar vivo, se debatendo, se torturando e se permitindo torturar. Acreditamos, quase todos, que a morte é o descanso definitivo, a recompensa maior. E, incoerência das incoerências, nos recusamos a apressá-la. Não me vem à cabeça nenhum outro exemplo de bem gigantesco atrás do qual optamos por não correr.
Decidimos ver o suicídio como prova de fraqueza, e isso faz com que não prestemos atenção ao seu caráter ativo, ao poder que contém. Matar-se provavelmente é a única chance, em uma vida inteira, de autodeterminar-se plenamente. E uma chance bastante escorregadia, basta ser morto para perdê-la.
Estamos todos indo em direção à forca, mas não sabemos qual, nem quando. No caminho, felicidade absoluta e tristeza desoladora. A vida, que minha mãe tentava me convencer, é uma montanha russa, parece mais uma roleta russa: medo, euforia e um final previsível após um certo número de cliques. Os ansiosos, os inconformados e os sensíveis, como o jovem de que falo, esses são os únicos inteligentes o bastante para pular os desnecessários solavancos no meio do percurso. Diga que são medrosos, eu digo que são os únicos corajosos o suficiente para amarrar a corda no próprio pescoço. E fortes o suficiente para fazê-lo quando querem, sem dar a ninguém mais esse privilégio.
Para os covardes, os que continuam aqui e nada têm a fazer exceto tentar extrair algum sentido do vazio – de onde, por definição, jamais se conseguirá extrair nada -, fica apenas a vontade de chorar. Vontade pouca e fraca de quem não o conheceu bem, de quem nem sabe se tem o direito de sofrer por ele. Vontade impotente de confortar os que sentem sua falta, de chorar por não ter coragem para enfrentar a morte, nem sabedoria para aceitar a vida. Por jamais saber o que leva as pessoas embora e, principalmente, por nunca entender o que nos faz ficar aqui.