Não sei se sucede a pessoas normais,
mas jamais consegui entender teus sinais.
Desmiótica
Novembro 10, 2009Arritmia (Descompasso)
Novembro 10, 2009Não importa o que faço, sua idéia segue perto: choque incerto e interno, um perverso marca-passo.
Sussurros
Outubro 31, 2009Se surpreenderia ao saber
que ao ver sua pele iluminada
desejei já não precisar
deitar meus olhos em mais nada.
Não compreenderia ao ouvir
que foi capaz um tal sorriso
de desenhar-se em minha memória
usando traços tão precisos.
Raiz de dois
Setembro 18, 2009Ando à espera de qualquer coisa menos racional
De medir menos os riscos e seguir mais os instintos
Agir apenas pela sensação de que é certo
Fazer algo mesmo sabendo que é errado.
Sem preocupações, sem ressentimentos
Declarar um novo começo:
“A partir de hoje, nada importa tanto que mereça
Chances calculadas, dores de cabeça”.
Eliminar toda ação que faça sentido,
Viver do que não possui lógica.
Incoerentemente depender do supérfluo.
Pular nu no mar, andar nu na rua
Deitar nu durante horas
Amar descontroladamente, no mar, na rua
Ver o sol nascer. Nu.
Só sabendo chorar, cantar, rir,
Perdido dentro dos seus olhos a ver o mundo cair.
Eternamente pedindo ao universo pra esperar mais um pouco,
Minuciosamente lambendo cada curva do seu corpo.
Copacabana
Julho 18, 2009Ando pela praia em busca de um lugar onde se coma bom peixe, mas não há nada parecido até onde alcançam meus olhos, entre opções que vão de pizza a hambúrgueres e batata frita. Os cariocas não sabem comer na praia, penso.
Um vendedor passa com um saco cheio de seus semi-áridos biscoitos de polvilho mas me decido por uma inapropriada empada. Peço à feia vendedora que faça-me o favor, duas empadas, ela replica que eu falo engraçado. Digo que venho de Vitória, ela me pergunta onde isso fica, digo que é uma ilha, ao Norte, no Espírito Santo, ela diz que vem da Ilha do Governador, que também é na Zona Norte e tem vista para o Cristo. Eu não digo nada.
Caminho em meio a uma multidão de estrangeiros bronzeados, observo prédios em que não vou morar, carros em que não vou andar, mulheres que não vou ter. O Forte vai crescendo em minha vista, traz à lembrança o cheiro dos doces exravagantes que se comem ali dentro. Na maior parte das vezes, a vida por aqui é um pouco sem sal.
Avisto o Poeta, sento ao seu lado, ele parece não se incomodar. Ofereço-lhe uma empada, ele não aceita. É, a comida da minha terra também é melhor que a daqui, eu digo. Ele continua com o olhar melancólico perdido em algum ponto, ficamos os dois em silêncio.
“Nunca faremos parte dessa cidade, não é mesmo?”, eu digo.
Mas o Poeta não diz nada.
Correnteza
Maio 29, 2009Meus olhos não choram ainda
mas hão de chorar em breve,
que a alma, já muito ferida,
chora (e, no entanto, ninguém percebe).
Aqui dentro bem escondida,
a alma tenta se represar.
O tempo passa e não cessa a tristeza;
as lágrimas se unem em correnteza,
já as sinto extravasando pelo olhar.
Meus olhos não choram ainda,
mas hão de chorar de alguma maneira,
que o sofrer mudo e a dor contida
acabam condensando em cachoeira.
Publicado por Marto
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