À primeira vista, o homem achou estranho que o quadro estivesse pendurado naquela parede. Depois se desmentiu: não é estranho; é absurdo.
E não apenas porque era a única pintura figurativa em toda a galeria. Embora, de fato, por todas as outras paredes se extendesse uma maravilhosa coleção de lixo contemporâneo. Riscos e traços infantis à esquerda, um pneu coberto de dinheiro à direita. Bem no centro, em destaque, um close intimista de um pênis ereto… a arte de hoje só sabe falar de si mesma. Não passa de uma adolescente arrogante – assim como os artistas de hoje.
Mas num canto da galeria, sob luz fraca, como que esquecido, estava o quadro. Não parecia ter a menor relação com a exposição, o que era um mérito. A face esquerda de um rosto rosado ocupava a maior parte da tela; rosto de mulher, ainda com ar de menina. Virava-se para a direita, os pequenos olhos abertos, o ombro nu sendo tocado gentilmente pelo queixo. Um queixo formidável.
Ostentava indolentemente o tipo de beleza que leva um homem a fazer bobagens. Como se soubesse que era linda – só não saberia se nunca tivesse visto um espelho – mas não desse atenção a isso. E se permitia ser flagrada ali, ignorando a câmera, com os lábios contraídos buscando algo por cima de seu ombro.
O homem comprou o quadro.
Pendurou-o em seu quarto e observa-o todos os dias, na expectativa de que ganhe vida. Até hoje, pelo que sei, isso não ocorreu.
Publicado por Marto
Publicado por Marto
Publicado por Marto